Uma homenagem à cidade
No aniversário de Montes Claros, celebrado em 3 de julho, revisitar a história da cidade é também reconhecer as trajetórias de pessoas, famílias, trabalhadores, empresas e lideranças que, em diferentes épocas, ajudaram a transformar o sertão norte-mineiro em polo regional.
Entre essas histórias, está a trajetória ligada ao nome Edgar Pereira.
Não como memória isolada de uma pessoa, de uma família ou de uma empresa, mas como parte de um processo maior: a formação econômica, urbana, produtiva e simbólica de Montes Claros.
A cidade não foi construída apenas por datas oficiais, discursos ou grandes obras públicas. Foi construída também por lavouras, fábricas, caminhões, armazéns, campos de futebol, circos, bairros, estudantes, operários, comerciantes, engenheiros e decisões práticas tomadas em momentos em que o Norte de Minas ainda precisava abrir seus próprios caminhos.
Esta é uma história de continuidade. Mas não de simples repetição.
Cada geração respondeu aos desafios de seu tempo.
Uma trouxe o campo para dentro da cidade.
Outra transformou a paisagem em símbolo.
Outra, de forma mais silenciosa, trouxe a engenharia especializada para sustentar a expansão urbana.
Assista à homenagem em vídeo: uma breve memória sobre Montes Claros, Edgar Pereira, a bandeira da cidade e a continuidade discreta desse legado pela engenharia.
Edgar Martins Pereira: o campo dentro da cidade
Edgar Martins Pereira pertenceu a uma geração que compreendeu algo decisivo: Montes Claros não poderia depender apenas da produção rural bruta. Era preciso transformar a força do campo em indústria, trabalho urbano, renda, logística e desenvolvimento regional.
A partir da produção agrícola do Norte de Minas, especialmente algodão, mamona, óleos vegetais e derivados, as Indústrias Ipê, da Comércio e Indústria Irmãos Pereira S.A., ajudaram a consolidar uma nova etapa econômica para Montes Claros.
A empresa não apenas comprava e beneficiava matéria-prima. Ela organizava cadeias produtivas, aproximava produtores rurais dos mercados consumidores, empregava trabalhadores, formava mão de obra e trazia para dentro da cidade parte da força produtiva do campo.
Essa talvez seja uma das melhores sínteses de sua contribuição histórica:
Edgar Martins Pereira trouxe o campo para a cidade.
O algodão deixava de ser apenas lavoura. Tornava-se indústria.
A mamona deixava de ser apenas produção rural. Tornava-se óleo, sabão, circulação comercial, emprego e renda.
Montes Claros, por sua vez, deixava de ser apenas entreposto e centro comercial regional para afirmar-se como polo industrial do Norte de Minas.
Essa transformação teve expressão urbana concreta. A presença da fábrica, dos trabalhadores e da vida econômica em torno da Ipê ajudou a moldar parte da cidade. O bairro Edgar Pereira, ligado à memória do industrial que marcou a economia norte-mineira, e a Vila Ipê, associada diretamente à presença da Irmãos Pereira e de sua marca industrial, são marcas territoriais desse processo.
A indústria, nesse caso, não ocupou apenas um terreno.
Ajudou a formar cidade.
A dimensão da Irmãos Pereira
A Irmãos Pereira não foi uma experiência pequena, episódica ou apenas local.
Em seu período de expansão, estruturou uma rede de atuação que ultrapassava Montes Claros e alcançava outras regiões produtoras e consumidoras do país.
O complexo ligado à marca Ipê reuniu unidades fabris e entrepostos em diferentes localidades, articulando produção, beneficiamento, refino, armazenamento e distribuição. Atuou em Montes Claros, em outras cidades de Minas Gerais, no Paraná e em São Paulo, integrando a produção agrícola regional a mercados mais amplos.
Essa presença industrial mostra a escala de uma iniciativa que nasceu no sertão norte-mineiro, mas não ficou limitada a ele.
Montes Claros era o centro simbólico e administrativo dessa trajetória, mas a força da empresa alcançou outras praças.
Um dos sinais mais expressivos dessa presença permanece fora de Minas Gerais: em Campo Mourão, no Paraná, cidade que recebeu uma unidade industrial ligada à expansão da Irmãos Pereira, a principal avenida central ainda carrega o nome Avenida Irmãos Pereira.
Esse detalhe é historicamente importante.
Nomes de avenidas não permanecem por acaso. Eles indicam marcas deixadas na economia, na memória urbana e na formação de uma cidade.
A presença do nome Irmãos Pereira no Paraná revela que aquela empresa nascida da força produtiva do Norte de Minas também deixou sinais em outras fronteiras agrícolas do Brasil.
A própria Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ao homenagear Edgar Pereira no centenário de seu nascimento, registrou a importância da empresa e lembrou que a indústria chegou a figurar como a terceira maior exportadora do país de lubrificante vegetal.
Não se tratava, portanto, de uma experiência local isolada. Tratava-se de um empreendimento norte-mineiro com alcance nacional.
O industrial, o político e o homem de formação
Edgar Martins Pereira não foi apenas empresário. Foi agricultor, industrial, comerciante e deputado federal por Minas Gerais.
Nasceu em Santo Antônio da Boa Vista, antigo distrito de Brasília de Minas, filho de Maximiliano Martins Pereira e Maria das Dores Pereira. Construiu sua trajetória em uma época na qual o Norte de Minas lutava por infraestrutura, reconhecimento político, desenvolvimento hídrico, estradas, investimentos e maior presença nas decisões estaduais e nacionais.
Foi eleito deputado federal em 1967 e reeleito em 1971. Morreu em 1973, em acidente automobilístico, durante o exercício do mandato, deixando um vazio político e afetivo na região.
Sua atuação parlamentar foi lembrada pela defesa dos interesses do Norte de Minas, especialmente nas pautas ligadas à agricultura, à Bacia do São Francisco, ao Polígono das Secas, à Sudene e às obras estruturantes necessárias ao desenvolvimento regional.
O requerimento apresentado na Câmara dos Deputados, por ocasião de seu centenário, definiu Edgar Martins Pereira como agricultor, industrial, comerciante e político, apontando-o como um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento industrial e econômico da região Norte de Minas Gerais.
O mesmo documento destacou sua atuação no Congresso Nacional, sobretudo na Comissão de Agricultura e Política Rural e nas questões referentes ao desenvolvimento da Bacia do São Francisco e do Polígono das Secas.
Esse reconhecimento é importante porque situa Edgar Pereira em uma escala mais ampla. Sua atuação não se limitou à empresa, à cidade ou à política local. Ele representou uma geração de lideranças norte-mineiras que buscavam integrar a região aos grandes debates nacionais sobre infraestrutura, agricultura, seca, desenvolvimento e produção.
As homenagens feitas por ocasião de seu centenário também ajudam a corrigir uma caricatura que, por vezes, se formou em torno de sua figura.
Edgar Pereira não era um homem sem formação, nem um improvisado. Estudou em instituições tradicionais, como o Ginásio Mineiro, em Belo Horizonte, e o Colégio Dom Pedro II, no Rio de Janeiro. Trazia a marca de uma geração em que a experiência prática do comércio, da indústria e da política se somava à formação escolar e à convivência com ambientes de maior circulação intelectual.
Esse ponto é importante porque impede uma leitura simplificada de sua personalidade.
Edgar era prático, direto e resolutivo. Mas isso não significava ignorância. Pelo contrário: sua trajetória demonstra a combinação rara entre formação, instinto empresarial, presença popular e capacidade de decisão.
O reconhecimento público de um legado
Em 2012, no centenário de nascimento de Edgar Martins Pereira, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou Reunião Especial em sua homenagem.
Na ocasião, seu irmão, Cipião Martins Pereira, e seu filho, Edgar Antunes Pereira, receberam uma placa comemorativa das mãos do deputado Dalmo Ribeiro Silva, em cerimônia que contou com a presença de parlamentares e lideranças públicas ligadas ao Norte de Minas.

A homenagem não se limitou ao protocolo. Ela ajudou a dimensionar a importância de Edgar Pereira para a região.
Foi lembrado como empreendedor que permitiu a muitas famílias concretizarem seus sonhos por meio do trabalho nas indústrias da família; como homem que estimulou agricultores locais a melhorar a produção de algodão; e como liderança política que atuou em favor de obras estruturantes para o desenvolvimento regional, incluindo a articulação pelo asfaltamento da BR-365.
Na mesma reunião, Cipião Martins Pereira resumiu a dimensão humana do irmão em uma imagem simples e forte: Edgar tinha “um menino bom dentro de si”.
Disse ainda que ele sonhava com um mundo sem barreiras entre ricos e pobres e que, para Edgar, o sucesso só fazia sentido se todos pudessem partilhar da mesma mesa.
Essa frase talvez explique por que sua memória permaneceu tão viva.
Edgar Pereira não foi lembrado apenas por ter sido industrial, agricultor, comerciante e deputado federal. Foi lembrado também pela forma como sua presença atravessava a vida das pessoas: no trabalho, no estudo, no futebol, no circo, na política e nas oportunidades abertas a famílias do Norte de Minas.
A Câmara dos Deputados também registrou, no centenário de seu nascimento, voto de louvor em sua memória, ressaltando sua simplicidade, honestidade, dedicação ao trabalho e o reconhecimento que recebia não apenas no Norte de Minas, mas em todo o Estado.
Essa combinação entre escala empresarial, atuação política e proximidade humana é o que torna Edgar Pereira uma figura difícil de reduzir a uma única definição.
Ele foi capitão de indústria, deputado federal e homem de cidade.
Mas, para muitos, continuou sendo também Tio Digas.
Tio Digas: a memória popular
Para muita gente, Edgar Martins Pereira não ficou na memória apenas como industrial, agricultor, comerciante e deputado federal.
Foi também Tio Digas.
Esse nome afetivo ajuda a revelar uma dimensão que os registros formais nem sempre conseguem alcançar. Edgar Pereira era lembrado como homem de presença forte, fala direta, humor rápido e gestos largos.
Sua liderança não se limitava às fábricas, às fazendas, aos gabinetes ou à política. Ela também aparecia nos campos de futebol, nos circos, nas festas populares, nas conversas de rua e na relação direta com a população.
Muitas pessoas ainda contam histórias de terem ido ao circo pela primeira vez por causa dele. Outras lembram de sua presença em eventos sociais, de sua ligação com o futebol e de uma forma de agir que misturava autoridade, generosidade e espontaneidade.
Essa memória oral deve ser tratada com respeito.
Ela não substitui o documento histórico, mas ajuda a revelar aquilo que o documento nem sempre registra: o modo como uma pessoa permaneceu viva na lembrança da cidade.
Nas homenagens de seu centenário, aparecem imagens que confirmam essa dimensão: o homem que circulava entre cidades, comparecia a festas, conversava com jornalistas, apoiava estudantes, mantinha relações com trabalhadores, produtores e lideranças locais.
Edgar Pereira era homem de fábrica, mas também de estrada.
Era homem de política, mas também de conversa.
Era industrial, mas não se afastava da vida cotidiana das cidades em que atuava.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais seu nome não ficou restrito à história econômica ou política.
Ele entrou também na memória afetiva de Montes Claros e do Norte de Minas.
O Ipê também foi futebol
A marca Ipê ultrapassou os limites da indústria.
Ela também entrou no futebol montes-clarense.
O time do Ipê marcou época no futebol amador da cidade, especialmente na década de 1960. Mais do que uma equipe ligada à fábrica, o Ipê era uma extensão simbólica daquele ambiente industrial e popular. Reunia atletas conhecidos, mobilizava torcedores e participava da vida social da cidade.
Desse universo nasceu uma das histórias mais repetidas sobre Edgar Pereira.
Conta-se que, após contratações importantes e resultados abaixo do esperado, o técnico teria justificado a falta de vitórias pela ausência de “entrosamento”. Edgar, com sua lógica prática e seu humor direto, teria respondido que, então, contratassem “esse tal de entrosamento”.
A frase entrou no folclore local, mas deve ser compreendida com cuidado.
Alguns memorialistas a consideravam injusta, por reforçar uma caricatura de homem sem letras, incompatível com sua formação e trajetória. Ainda assim, a permanência da história revela algo importante: Edgar Pereira era uma figura grande o suficiente para gerar anedotas, versões, disputas de memória e frases que atravessavam gerações.
Mesmo quando contestada, a história do “entrosamento” mostra como sua personalidade se tornou parte da cultura oral da cidade.
Porteirinha, algodão e vida regional
A memória de Edgar Pereira não se limitava a Montes Claros.
Em Porteirinha, por exemplo, sua presença esteve ligada ao comércio do algodão, às disputas políticas, às festas sociais e à vida econômica da cidade. Mantinha entrepostos, circulava entre grupos políticos divergentes e era lembrado como alguém capaz de transitar com naturalidade entre adversários, mantendo relações pessoais amplas.
Essa capacidade de circular entre diferentes ambientes talvez seja uma das chaves de sua liderança.
Em uma região marcada por rivalidades políticas, disputas comerciais e forte vida comunitária, Edgar Pereira conseguia manter interlocução com diferentes grupos. Essa presença, ao mesmo tempo empresarial e social, ampliava sua influência.
As homenagens do centenário registram, por exemplo, sua participação em festas ligadas à cultura algodoeira, como a Festa do Algodão de Porteirinha, quando compareceu trajando terno branco e gravata borboleta — imagem que revela respeito pelo evento, pela cidade e pelas pessoas que ali estavam.
Esse detalhe é mais do que uma cena social.
Ele ajuda a compor o personagem: um capitão de indústria que sabia se apresentar publicamente, que dava importância aos símbolos de convivência e que compreendia a força das relações pessoais em uma região onde economia, política e vida comunitária caminhavam juntas.
O pai do estudante pobre
Um dos relatos mais marcantes das homenagens de seu centenário menciona sua atenção aos estudantes pobres.
No dia de sua morte, Edgar Pereira teria comentado que havia conseguido muitas bolsas de estudo para jovens carentes da região. Depois, sua lembrança foi associada à imagem de “pai do estudante pobre”.
Esse detalhe aprofunda sua dimensão humana.
Empregos, fábricas e empreendimentos explicam parte do legado. Mas bolsas de estudo, entradas no circo, presença nas festas populares e atenção aos jovens revelam outra camada: a de um homem público que, com todas as complexidades de sua época, era reconhecido por gestos concretos.
A memória de uma liderança não se forma apenas por sua capacidade de produzir riqueza.
Forma-se também pelo modo como essa liderança toca a vida das pessoas.
No caso de Edgar Pereira, a lembrança dos estudantes, dos trabalhadores, das crianças nos circos e dos agricultores ligados ao algodão compõe uma imagem mais completa: a de um homem que deixou marcas materiais e afetivas.
Edgar Antunes Pereira: técnica, irrigação e modernização do campo
A geração seguinte também deixou contribuição própria.
Edgar Antunes Pereira, filho de Edgar Martins Pereira, deu continuidade ao impulso de desenvolvimento da família, mas por caminhos diferentes.
Se a geração anterior havia transformado produção agrícola em indústria urbana, Edgar Antunes esteve ligado à modernização do campo por meio da agropecuária empresarial e da irrigação.
Foi fundador da Arapuim Agropecuária e Industrial S.A., reconhecida como um dos maiores projetos de irrigação privada do Brasil. A iniciativa representou uma etapa importante dessa história: a passagem da agropecuária tradicional para uma visão mais técnica, irrigada e empresarial do campo norte-mineiro.
Essa visão dialogava com um desafio antigo da região: transformar o semiárido não por discurso, mas por obra, manejo, investimento e conhecimento aplicado.
O Norte de Minas sempre conviveu com a tensão entre escassez hídrica e potencial produtivo.
A irrigação, nesse contexto, não era apenas uma técnica agrícola. Era uma resposta concreta a uma limitação histórica do território.
Edgar Antunes Pereira participou dessa etapa em que produzir no semiárido exigia mais que coragem empresarial. Exigia engenharia, planejamento, infraestrutura, conhecimento do solo, manejo da água e confiança na capacidade produtiva da região.
Se Edgar Martins Pereira transformou o campo em indústria, Edgar Antunes Pereira buscou transformar a própria produção do campo por meio da técnica.
A bandeira de Montes Claros: quando a paisagem vira símbolo
Mas talvez a contribuição mais permanente de Edgar Antunes Pereira para Montes Claros esteja em outro campo: o simbólico.
Em 1981, Edgar Antunes Pereira venceu o concurso público para criação da bandeira oficial do município de Montes Claros.
O desenho foi oficializado pelo Decreto Municipal nº 564, de 18 de novembro de 1981, e desde então passou a representar a cidade em escolas, prédios públicos, solenidades, documentos oficiais e atos cívicos.

Essa é uma contribuição de natureza diferente.
Uma indústria pode encerrar suas atividades.
Uma fazenda pode mudar de destino.
Uma empresa pode se transformar.
Mas um símbolo oficial, quando incorporado pela cidade, atravessa gerações.
A bandeira de Montes Claros é, nesse sentido, uma forma de permanência.
Seu desenho sintetiza elementos essenciais da identidade local. O azul remete ao céu claro do sertão norte-mineiro. O branco representa os montes que dão nome à cidade. O amarelo traduz o sol intenso, a luminosidade e a força climática da região. O verde aponta para as pastagens, para a origem pecuária e para a relação histórica entre Montes Claros e o campo.
A força da bandeira está justamente nessa simplicidade.
Ela não tenta representar Montes Claros por excesso de elementos, mas por síntese.
Céu, montes, sol e pastagens: quatro imagens fundamentais para compreender a geografia, a memória e a formação econômica da cidade.
Edgar Antunes Pereira transformou paisagem em símbolo.
Essa talvez seja a dimensão mais duradoura de sua contribuição.
Ao desenhar a bandeira, ele não criou apenas uma peça gráfica. Criou uma imagem pública da cidade. Uma forma visual pela qual Montes Claros passou a se reconhecer e a ser reconhecida.
A bandeira não pertence a uma família, a uma empresa ou a uma geração.
Pertence ao município.
Por isso, sua criação ocupa lugar especial nessa história. É a contribuição que deixou de ser privada e se tornou cívica. Deixou de ser memória familiar e passou a ser patrimônio simbólico de Montes Claros.
Se Edgar Martins Pereira ajudou a trazer o campo para dentro da cidade, Edgar Antunes Pereira ajudou a transformar a própria cidade em símbolo.
E esse símbolo permanece.
A terceira geração e a engenharia que quase ninguém vê
Em uma terceira etapa, essa história encontrou uma continuidade mais discreta.
Se Edgar Martins Pereira trouxe o campo para dentro da cidade, ao transformar produção rural em indústria, emprego e urbanização; e se Edgar Antunes Pereira transformou a paisagem em bandeira, a geração seguinte ligada à APL Engenharia trouxe para Montes Claros uma engenharia especializada que quase nunca aparece, mas que sustenta o crescimento urbano: a investigação geotécnica e a engenharia de fundações.
Fundada por alguém que também carrega o nome Edgar, a APL Engenharia tornou-se a primeira empresa local especializada em investigação geotécnica e engenharia de fundações no Norte de Minas.
Essa contribuição não tem a visibilidade de uma fábrica, de uma avenida, de um time de futebol ou de uma bandeira.
E talvez por isso combine com a própria natureza da engenharia de fundações.
A fundação é aquilo que quase ninguém vê, mas que permite que a obra permaneça de pé.
A sondagem é o estudo silencioso feito antes da construção aparecer.
O solo, quando bem compreendido, deixa de ser incerteza e passa a ser base.
Essa foi a forma encontrada pela terceira geração para continuar contribuindo com a cidade: não pela exposição pública, mas pelo trabalho técnico. Não pela memória monumental, mas pela responsabilidade invisível que acompanha cada obra bem fundada.
A engenharia de fundações raramente aparece na fotografia final de uma cidade.
Mas está sob os prédios, sob os galpões, sob as estruturas industriais, sob as obras públicas e privadas que permitem à cidade crescer.
É uma presença discreta, mas essencial.
Um nome que atravessa gerações
O nome Edgar atravessa essa história, mas cada geração lhe deu um sentido próprio.
Em Edgar Martins Pereira, o nome aparece ligado à indústria, ao trabalho, à política regional, ao futebol, ao circo, aos estudantes e à memória popular de Tio Digas.
Em Edgar Antunes Pereira, aparece ligado à irrigação, à modernização produtiva e à criação de um dos símbolos oficiais de Montes Claros.
Na geração da APL Engenharia, aparece de forma mais reservada, ligada à técnica, ao solo, às fundações e à engenharia que sustenta a cidade sem precisar aparecer.
Essa continuidade não deve ser lida como exaltação pessoal.
A melhor forma de honrar uma história talvez seja reconhecê-la com sobriedade.
Nomes importam, mas apenas quando cada geração trabalha para justificar, com discrição e responsabilidade, o nome que recebeu.
Uma história de permanências
A contribuição da família Pereira para Montes Claros pode ser lida como uma sequência de respostas aos desafios de cada época.
Primeiro, transformar o campo em indústria.
Depois, transformar a terra seca em produção irrigada.
Depois, transformar a paisagem da cidade em bandeira.
Por fim, transformar o conhecimento do solo em segurança para a expansão urbana.
Cada etapa tem sua forma própria de permanência.
A indústria permaneceu na memória econômica, no bairro, nos empregos criados, nas histórias de trabalhadores, no futebol do Ipê e na lembrança popular de Tio Digas.
A bandeira permaneceu de outro modo: tornou-se símbolo oficial, imagem pública, referência cívica e representação visual de Montes Claros.
A engenharia de fundações permanece de maneira mais silenciosa. Não aparece na paisagem como uma fábrica, uma avenida ou uma bandeira. Mas está sob as obras, sob os prédios, sob os galpões, sob as estruturas que permitem à cidade crescer.
No aniversário de Montes Claros, lembrar essa trajetória não é olhar para trás com nostalgia.
É reconhecer que uma cidade é construída por camadas.
Algumas são visíveis: fábricas, bairros, avenidas, campos de futebol e símbolos oficiais.
Outras são silenciosas: sondagens, fundações, decisões técnicas, responsabilidade profissional e trabalho cotidiano.
Todas, de algum modo, sustentam a cidade.
E talvez seja essa a melhor forma de resumir essa continuidade:
Edgar Martins Pereira trouxe o campo para a cidade.
Edgar Antunes Pereira transformou a paisagem em bandeira.
A terceira geração, por meio da APL Engenharia, trouxe a engenharia especializada para dentro dela.
Entre uma coisa e outra, permanece o mesmo fio histórico: contribuir para que Montes Claros cresça a partir de soluções concretas para os desafios do seu tempo.
Neste 3 de julho, a homenagem é à cidade.
E, com humildade, também àqueles que, em diferentes gerações, ajudaram a construí-la, representá-la e sustentá-la.



