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1. Introdução
A afirmação “o concreto não trabalha à tração” é correta quando se refere ao concreto simples, porém é frequentemente mal interpretada quando aplicada a elementos estruturais como blocos de fundação.
Na prática, blocos de concreto — especialmente blocos sobre estacas — podem estar submetidos a esforços de tração internos, decorrentes da redistribuição de tensões.
Segundo a NBR 6118:2014, itens 14.6 e 22.3, elementos estruturais devem ser verificados considerando estados limites últimos, sendo admissível o uso de modelos de bielas e tirantes para representar o fluxo de esforços em regiões descontínuas.
2. Propriedades do concreto em tração
A resistência à tração do concreto pode ser estimada por:
Conforme NBR 6118:2014 – item 8.2.5.
Interpretação prática
- fctm = resistência média à tração (MPa)
- fck = resistência característica à compressão (MPa)
👉 Em termos aproximados:
Conclusão
- o concreto fissura sob pequenas trações
- após fissuração, quem resiste é a armadura
3. Regiões descontínuas (D-regions) e blocos de fundação
Blocos sobre estacas são classificados como regiões descontínuas, conforme:
👉 NBR 6118:2014 – item 22.3
Nessas regiões:
- não se aplica a hipótese de seções planas
- há redistribuição não linear de tensões
- utiliza-se o modelo de bielas e tirantes
4. Modelo de bielas e tirantes
O comportamento do bloco é idealizado como:
- bielas → compressão no concreto
- tirantes → tração na armadura
4.1 Interpretação física
- carga aplicada → se distribui para as estacas
- surgem trajetórias inclinadas de compressão (bielas)
- para equilíbrio, surgem forças de tração (tirantes)
5. Esforço de tração no bloco
Uma forma simplificada de estimar a tração é:
5.1 Definição das variáveis
T = força de tração (kN)
👉 esforço que deve ser resistido pela armadura
N = força normal aplicada (kN)
👉 obtida do projeto estrutural (cargas do pilar)
e = excentricidade (m)
👉 distância entre:
- eixo da carga aplicada (pilar)
- centro de reação das estacas
✔ Como obter na prática:
- planta de fundações
- posição do pilar em relação às estacas
- análise estrutural
Interpretação da excentricidade
👉 representa o deslocamento da carga em relação ao sistema de apoio
Quanto maior o desalinhamento:
👉 maior o momento gerado
👉 maior a tração no bloco
z = braço de alavanca (m)
👉 distância entre:
- linha de compressão (bielas)
- linha de tração (armadura)
✔ Como obter na prática:
- geometria do bloco
- altura útil (d)
- posição da armadura
Interpretação do braço de alavanca
👉 representa a “eficiência geométrica” do sistema
- maior z → menor esforço de tração
- menor z → maior esforço de tração
6. Exemplo prático aplicado

Dados:
- carga do pilar: N=500kN
- excentricidade: e=0,20m
- braço de alavanca: z=0,50m
Cálculo:
Interpretação:
👉 A armadura deve resistir a 200 kN de tração
6.1 Dimensionamento da armadura
Variáveis:
- As = área de aço (cm²)
- T = força de tração (kN)
- fyd = resistência de cálculo do aço (MPa)
✔ Onde obter:
- aço CA-50 → fyk=500MPa
- fyd=γsfyk
👉 conforme NBR 6118 – item 8.4.2
7. Situações reais de tração em blocos
- carga excêntrica
- ações horizontais
- efeito de grupo de estacas
- arrancamento (uplift)
- imperfeições de execução
👉 Em todos os casos:
a tração existe — mesmo que não seja evidente
8. Erro comum em projeto e obra
👉 “bloco trabalha só à compressão”
Consequências:
- armadura subdimensionada
- fissuração precoce
- perda de rigidez
- redistribuição indesejada de esforços
9. Síntese técnica
Blocos de concreto:
- não resistem à tração pelo concreto
- podem estar submetidos à tração internamente
- necessitam de armadura para garantir equilíbrio
10. Conclusão
O comportamento de blocos de fundação não é puramente compressivo.
Ele resulta da interação entre:
- geometria
- posição das cargas
- sistema de apoio
- armadura



