Na prática da engenharia geotécnica, é comum observar que os valores de NSPT aumentam com a profundidade, mesmo quando a sondagem atravessa uma camada aparentemente homogênea.

Esse fenômeno pode levar a interpretações equivocadas, especialmente quando o aumento do NSPT é atribuído diretamente a uma melhora das propriedades do solo. No entanto, muitas vezes esse comportamento está associado ao aumento da tensão de confinamento do maciço, e não necessariamente a uma alteração da compacidade ou consistência do material.

Compreender esse efeito é fundamental para interpretar corretamente os resultados do ensaio de penetração padrão (SPT) e para evitar erros na avaliação da capacidade de carga ou na caracterização geotécnica do terreno.


O que o ensaio SPT realmente mede

O ensaio SPT consiste na cravação de um amostrador padrão no solo mediante golpes de um martelo de 65 kg com queda livre de 75 cm.

O índice NSPT corresponde ao número de golpes necessários para cravar os últimos 30 cm do amostrador.

Portanto, o NSPT não representa diretamente uma propriedade fundamental do solo, mas sim uma medida empírica da resistência à penetração, que depende de diversos fatores, como:

  • tipo de solo
  • estado de tensões no maciço
  • nível de confinamento
  • energia efetivamente transmitida ao sistema de cravação.

Entre esses fatores, o estado de tensões do solo desempenha um papel fundamental.


A influência da tensão de confinamento

À medida que o ensaio avança em profundidade, o solo passa a estar submetido a maiores tensões verticais efetivas, decorrentes do peso das camadas sobrejacentes.

A tensão vertical efetiva pode ser estimada por:σv=γz\sigma’_v = \gamma’ \cdot zσv′​=γ′⋅z

onde:

σ′v = tensão vertical efetiva
γ′ = peso específico efetivo do solo
z = profundidade

O aumento dessa tensão gera maior confinamento do maciço, pressionando as partículas do solo entre si.

Esse confinamento adicional provoca:

  • aumento do atrito entre partículas
  • maior resistência à deformação
  • maior resistência à penetração do amostrador.

Consequentemente, mesmo em um solo com mesma compacidade ou consistência, o valor do NSPT tende a ser maior em maiores profundidades.


Relação com o comportamento observado em ensaios triaxiais

Esse comportamento é coerente com os princípios fundamentais da mecânica dos solos observados em ensaios triaxiais.

No ensaio triaxial, o solo é submetido a uma pressão confinante σ₃, que representa a tensão lateral aplicada ao corpo de prova.

Quando essa pressão confinante aumenta, observa-se um aumento da resistência ao cisalhamento mobilizada pelo solo.

Esse comportamento pode ser descrito pelo critério de resistência de Mohr-Coulomb:τ=c+σtan(φ)\tau = c + \sigma’ \tan(\varphi)τ=c+σ′tan(φ)

onde:

τ = tensão de cisalhamento
c = coesão do solo
σ′ = tensão normal efetiva
φ = ângulo de atrito interno

Quando a tensão normal aumenta, a resistência ao cisalhamento mobilizada também aumenta.

De forma análoga, no ensaio SPT, o aumento do confinamento dificulta a deformação lateral do solo durante a penetração do amostrador, resultando em valores maiores de NSPT.


Correção do NSPT para efeito de sobrecarga

Para permitir comparações adequadas entre resultados obtidos em diferentes profundidades, é comum aplicar a chamada correção de sobrecarga.

Essa correção busca normalizar o valor do NSPT em relação à tensão vertical efetiva atuante no solo.

Uma expressão amplamente utilizada para o fator de correção é:CN=PaσvC_N = \sqrt{\frac{P_a}{\sigma’_v}}CN​=σv′​Pa​​​

onde:

CN = fator de correção de sobrecarga
Pa = pressão atmosférica (aproximadamente 100 kPa)
σ′v = tensão vertical efetiva no nível do ensaio

O valor corrigido do NSPT é então obtido por:Ncorr=CNNN_{corr} = C_N \cdot NNcorr​=CN​⋅N

Essa normalização permite comparar valores de NSPT obtidos em diferentes profundidades ou em diferentes perfis de solo.


Implicações para a interpretação de sondagens

Ignorar o efeito da sobrecarga pode levar a interpretações incorretas do perfil geotécnico.

Em particular, pode-se concluir equivocadamente que o solo apresenta melhora significativa de resistência com a profundidade, quando na realidade o aumento do NSPT é apenas consequência do aumento da tensão de confinamento.

Esse fenômeno é particularmente relevante em:

  • depósitos arenosos relativamente homogêneos
  • perfis sedimentares espessos
  • análises comparativas de compacidade relativa.

Por essa razão, muitas correlações geotécnicas modernas utilizam valores de NSPT corrigidos para energia e sobrecarga.


Explicação em vídeo: por que o NSPT aumenta com a profundidade?

Preparamos também um vídeo explicando esse fenômeno de forma visual e didática.

No vídeo mostramos:

  • como o confinamento aumenta com a profundidade
  • por que o mesmo solo pode apresentar NSPT diferentes
  • a relação entre SPT e ensaio triaxial
  • a importância da correção de sobrecarga

📺 Assista ao vídeo:

Conclusão

O valor do NSPT não depende exclusivamente das características intrínsecas do solo.

O índice também é fortemente influenciado pelo estado de tensões do maciço, que aumenta com a profundidade devido ao peso das camadas sobrejacentes.

Esse aumento da tensão de confinamento eleva a resistência à penetração do amostrador, podendo gerar valores maiores de NSPT mesmo em solos com propriedades semelhantes.

Assim, a aplicação de correções para o efeito da sobrecarga é fundamental para garantir uma interpretação geotécnica adequada dos resultados de sondagem.


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