Introdução

Toda estrutura transmite cargas ao solo. Como consequência, o terreno sofre deformações e ocorre o fenômeno conhecido como recalque.

O recalque é um comportamento natural do solo quando submetido a carregamentos. Em projetos de fundações, esse fenômeno pode ser previsto e estimado através de modelos teóricos e correlações empíricas obtidas a partir de ensaios geotécnicos.

Embora o recalque seja esperado em praticamente todas as obras, a principal preocupação da engenharia está associada ao recalque diferencial, que pode gerar esforços adicionais na estrutura e comprometer seu desempenho.


Assista à explicação resumida em vídeo

Neste vídeo apresentamos uma explicação rápida sobre recalques em fundações.

Assista ao vídeo:

O vídeo apresenta uma introdução conceitual em cerca de 60 segundos.
Nos tópicos seguintes aprofundamos o tema com base nos fundamentos da mecânica dos solos.


O que é recalque

Recalque é o deslocamento vertical descendente de uma fundação ou estrutura, causado pela deformação do solo sob carregamento.

Esse deslocamento ocorre porque o solo é um material compressível constituído por:

  • partículas sólidas
  • vazios preenchidos por água ou ar.

Quando uma carga é aplicada, ocorre aumento de tensões no maciço e consequentemente deformações no solo.


Principais mecanismos de recalque

Recalque imediato

O recalque imediato ocorre logo após a aplicação da carga e está associado à deformação elástica do solo.

Esse tipo de recalque é mais comum em:

  • solos granulares
  • areias
  • materiais com alta permeabilidade.

Uma formulação clássica para estimativa do recalque elástico de fundações superficiais é:s=qB(1ν2)EsIss = \frac{q \cdot B (1 – \nu^2)}{E_s} I_ss=Es​q⋅B(1−ν2)​Is​

onde:

s = recalque
q = tensão aplicada na fundação
B = largura da fundação
ν = coeficiente de Poisson do solo
Es = módulo de deformabilidade do solo
Is = fator de influência.


Recalque por adensamento

Em solos pouco permeáveis, principalmente argilas, o recalque ocorre devido à expulsão gradual da água dos poros.

Esse fenômeno é descrito pela teoria do adensamento de Terzaghi.

O recalque por adensamento pode ser estimado pela expressão:S=Cc1+e0Hlogσ0+Δσσ0S = \frac{C_c}{1+e_0} H \log \frac{\sigma’_0 + \Delta\sigma}{\sigma’_0}S=1+e0​Cc​​Hlogσ0′​σ0′​+Δσ​

onde:

S = recalque de adensamento
Cc = índice de compressão
e0 = índice de vazios inicial
H = espessura da camada compressível
σ’0 = tensão efetiva inicial
Δσ = incremento de tensão.


Recalque secundário

Após o término do adensamento primário ainda pode ocorrer deformação adicional do solo ao longo do tempo.

Esse fenômeno é conhecido como recalque secundário ou creep, e é mais relevante em solos orgânicos e argilas altamente compressíveis.


Recalque uniforme e recalque diferencial

Nem todo recalque causa problemas estruturais.

Quando toda a fundação sofre deslocamento semelhante ocorre o recalque uniforme, que normalmente não gera danos significativos.

O problema ocorre quando diferentes partes da estrutura sofrem deformações distintas.

Esse fenômeno é chamado recalque diferencial.

O recalque diferencial pode gerar:

  • fissuras em paredes
  • deformação de elementos estruturais
  • problemas em portas e janelas
  • redistribuição de esforços estruturais.

Estimativa de recalques utilizando NSPT

Na prática da engenharia geotécnica brasileira, muitas estimativas de recalque são realizadas utilizando correlações empíricas com o NSPT.

Diversos autores propuseram relações entre o valor de N e o módulo de deformabilidade do solo.

Uma correlação frequentemente utilizada é:Es=kNE_s = k \cdot NEs​=k⋅N

onde:

Es = módulo de deformabilidade do solo
N = índice de resistência à penetração do SPT
k = coeficiente empírico dependente do tipo de solo.

Valores típicos de k são:

  • areias: 2 a 5 MPa por golpe
  • argilas: 1 a 3 MPa por golpe.

Essas correlações permitem estimar recalques a partir de dados obtidos em sondagens SPT.


Importância da investigação geotécnica

A previsão de recalques depende diretamente da qualidade da investigação do subsolo.

Camadas diferentes podem apresentar:

  • diferentes compressibilidades
  • diferentes módulos de deformabilidade
  • diferentes respostas ao carregamento.

Por esse motivo, a sondagem geotécnica é fundamental para o projeto adequado de fundações.


Conclusão

O recalque é um fenômeno inevitável quando cargas são transmitidas ao solo. Entretanto, ele pode ser previsto e controlado através de uma adequada investigação geotécnica e análise de deformabilidade do terreno.

O principal risco estrutural está associado ao recalque diferencial, que pode gerar esforços adicionais não previstos no projeto estrutural.

Por esse motivo, o conhecimento detalhado do subsolo é essencial para garantir a segurança e o desempenho das estruturas.


Exemplo prático: cálculo simplificado de recalque em fundações

A seguir apresentamos dois exemplos didáticos de estimativa de recalque, utilizando as fórmulas mostradas neste artigo.
Os valores adotados são hipotéticos e simplificados, com finalidade exclusivamente explicativa.


Exemplo 1 – Estimativa de recalque imediato

Considere uma fundação superficial com as seguintes premissas:

  • tensão aplicada na base da fundação: q = 150 kPa
  • largura da fundação: B = 2,0 m
  • coeficiente de Poisson do solo: ν = 0,30
  • módulo de deformabilidade do solo: Es = 15.000 kPa
  • fator de influência: Is = 1,0

A fórmula simplificada do recalque imediato é:

s = [q × B × (1 − ν²) / Es] × Is

Passo 1 – calcular o termo (1 − ν²)

Como:

ν = 0,30

temos:

ν² = 0,30² = 0,09

Logo:

1 − ν² = 1 − 0,09 = 0,91


Passo 2 – substituir os valores na fórmula

s = [150 × 2,0 × 0,91 / 15.000] × 1,0

Primeiro o numerador:

150 × 2,0 × 0,91 = 273

Então:

s = 273 / 15.000

s = 0,0182 m


Passo 3 – converter para milímetros

0,0182 m = 18,2 mm


Resultado do exemplo 1

O recalque imediato estimado é:

s = 18,2 mm


Interpretação

Esse valor representa o deslocamento vertical esperado da fundação logo após a aplicação da carga, considerando comportamento elástico simplificado do solo.


Exemplo 2 – Estimativa de recalque por adensamento

Agora considere uma camada de argila compressível sob a fundação, com as seguintes premissas:

  • índice de compressão: Cc = 0,25
  • índice de vazios inicial: e0 = 0,90
  • espessura da camada compressível: H = 4,0 m
  • tensão efetiva inicial no centro da camada: σ’0 = 80 kPa
  • incremento de tensão devido à fundação: Δσ = 60 kPa

A fórmula do recalque por adensamento é:

S = [Cc / (1 + e0)] × H × log[(σ’0 + Δσ) / σ’0]

Neste exemplo, o logaritmo é na base 10.


Passo 1 – calcular o termo Cc / (1 + e0)

Temos:

1 + e0 = 1 + 0,90 = 1,90

Então:

Cc / (1 + e0) = 0,25 / 1,90 = 0,1316


Passo 2 – calcular a razão de tensões

(σ’0 + Δσ) / σ’0 = (80 + 60) / 80 = 140 / 80 = 1,75


Passo 3 – calcular o logaritmo

log(1,75) ≈ 0,243


Passo 4 – substituir na fórmula

S = 0,1316 × 4,0 × 0,243

Primeiro:

0,1316 × 4,0 = 0,5264

Depois:

0,5264 × 0,243 = 0,1279 m


Passo 5 – converter para milímetros

0,1279 m = 127,9 mm


Resultado do exemplo 2

O recalque por adensamento estimado é:

S = 127,9 mm


Interpretação

Esse valor representa o recalque esperado ao longo do tempo, à medida que a água é expulsa dos vazios da argila e o solo sofre redução de volume.


Comparação entre os dois resultados

Neste exemplo:

  • recalque imediato = 18,2 mm
  • recalque por adensamento = 127,9 mm

Isso mostra que, em solos compressíveis como argilas, o recalque por adensamento pode ser muito mais significativo que o recalque imediato.


Observação técnica importante

Esses exemplos são simplificados e servem apenas para demonstrar o procedimento de cálculo.

Na prática profissional, a estimativa de recalques deve considerar:

  • estratigrafia real do subsolo
  • posição do nível d’água
  • forma e dimensão da fundação
  • distribuição de tensões em profundidade
  • parâmetros geotécnicos obtidos em campo e laboratório
  • interação solo-estrutura.

Referências bibliográficas

Terzaghi, K.; Peck, R.; Mesri, G.
Soil Mechanics in Engineering Practice.

Bowles, J.
Foundation Analysis and Design.

Das, B.
Principles of Geotechnical Engineering.

Velloso, D.; Lopes, F.
Fundações.