O dimensionamento de uma cortina de estacas não começa pela escolha do diâmetro, da armadura ou da profundidade das estacas.

Ele começa pela compreensão do terreno.

Antes de escrever qualquer equação, o projetista precisa responder:

  • quais camadas de solo existem;
  • como essas camadas variam ao longo da contenção;
  • onde está o nível d’água;
  • quais parâmetros representam a resistência do solo;
  • qual é a deformabilidade do maciço;
  • quais sobrecargas atuarão próximas à escavação;
  • qual deslocamento a vizinhança pode tolerar;
  • como a escavação será executada.

A partir dessas informações, constrói-se um modelo no qual o terreno atrás da cortina produz empuxos e o solo existente abaixo da cota de escavação fornece parte da resistência necessária.

Este artigo ensina o dimensionamento de uma cortina de estacas em balanço, sem tirantes e sem escoras, por um método simplificado de equilíbrio-limite.

O exemplo tem finalidade pedagógica. Ele permite que um estudante compreenda o raciocínio, reproduza os cálculos e monte uma planilha. Não substitui um projeto executivo, que exige investigação específica, responsabilidade técnica, combinações normativas, verificação de deslocamentos, estabilidade global, água, etapas construtivas e condições reais de execução.

Para compreender primeiro os diferentes sistemas disponíveis, consulte contenção de solo: tipos de muros, cortinas, tirantes e importância da sondagem.

As diferenças entre cortina espaçada, tangente e secante, assim como os métodos com estaca escavada, hélice contínua e estaca raiz, estão detalhadas em cortina de contenção em estacas: tipos, métodos executivos e segurança da escavação.

1. O que será dimensionado neste exemplo

Será estudada uma contenção com as seguintes características:

  • estacas circulares de concreto armado;
  • estacas escavadas moldadas no local;
  • cortina espaçada;
  • fechamento entre estacas executado separadamente;
  • terreno horizontal atrás da cortina;
  • escavação vertical;
  • solo arenoso homogêneo;
  • cortina trabalhando em balanço;
  • ausência de tirantes e escoras;
  • nível d’água abaixo da ponta da estaca no exemplo principal;
  • sobrecarga uniforme próxima à contenção.

O sistema possui duas regiões fundamentais.

Trecho livre ou trecho em balanço

É a parte da estaca que fica exposta após a escavação.

Nesse trecho, o solo existente atrás da cortina produz pressão horizontal. Como não existe solo no lado escavado, não há resistência frontal equivalente.

Ficha de embutimento

É o comprimento da estaca situado abaixo da cota final de escavação.

Nessa região, ainda existe solo dos dois lados. A interação entre a estaca e o terreno fornece resistência lateral e permite equilibrar parte dos empuxos aplicados acima.

A ficha não é simplesmente uma fração fixa da altura escavada. Ela depende dos parâmetros do solo, da sobrecarga, da água, do diâmetro, do espaçamento e do método de cálculo.

2. Geometria e variáveis utilizadas

Considere a seguinte nomenclatura:

SímboloDefiniçãoUnidade
HHHAltura livre da escavaçãom
dddFicha teórica de embutimentom
dfd_fdf​Ficha final adotadam
LLLComprimento total da estaca, L=H+dfL=H+d_fL=H+df​m
DDDDiâmetro da estacam
sssEspaçamento entre eixos das estacasm
gggVão livre entre estacas, g=sDg=s-Dg=s−Dm
qqqSobrecarga uniforme na superfíciekPa
zzzProfundidade medida a partir da superfíciem
xxxProfundidade abaixo da cota de escavaçãom
zwz_wzw​Profundidade do nível d’águam
γ\gammaγPeso específico natural do solokN/m³
γsat\gamma_{sat}γsat​Peso específico saturadokN/m³
γ\gamma’γ′Peso específico submersokN/m³
φ\varphi’φ′Ângulo de atrito efetivograus
cc’c′Coesão efetivakPa
KaK_aKa​Coeficiente de empuxo ativo
KpK_pKp​Coeficiente de empuxo passivo
MkM_kMk​Momento fletor característicokN·m
MSdM_{Sd}MSd​Momento fletor de cálculokN·m
VSdV_{Sd}VSd​Esforço cortante de cálculokN
AsA_sAs​Área de aço longitudinalmm²
fckf_{ck}fck​Resistência característica do concretoMPa
fykf_{yk}fyk​Resistência característica do açoMPa

3. A investigação geotécnica necessária

Uma cortina de estacas mobiliza uma região de solo que se estende abaixo da escavação e lateralmente para trás da contenção.

Por isso, a investigação não pode terminar exatamente na cota final do corte.

A sondagem precisa alcançar profundidade suficiente para caracterizar:

  • todo o trecho livre;
  • a provável ficha de embutimento;
  • o solo que fornecerá resistência passiva;
  • camadas compressíveis situadas abaixo;
  • transições abruptas;
  • materiais impenetráveis;
  • rocha alterada ou sã;
  • nível d’água e suas variações.

Também é necessário avaliar a variação lateral do perfil ao longo da cortina. Um único furo pode não representar uma contenção extensa ou um terreno geologicamente heterogêneo.

A sondagem SPT fornece o perfil das camadas, amostras deformadas, valores de NSPT e observações sobre o nível d’água.

Quando o SPT encontra material impenetrável sem esclarecer sua natureza, podem ser necessárias sondagens mistas e rotativas.

A leitura do boletim deve considerar a continuidade do perfil, a energia do ensaio e as condições geológicas, e não apenas um número isolado. Esse tema é aprofundado em interpretação geotécnica do SPT e em variabilidade e eficiência real de energia no SPT.

4. Parâmetros necessários e onde obtê-los

A tabela abaixo diferencia parâmetros medidos, estimados e definidos pelo projeto.

ParâmetroSímboloFunção no cálculoFonte preferencial
Peso específico naturalγ\gammaTensões verticais e empuxosÍndices físicos e amostras representativas
Peso específico saturadoγsat\gamma_{sat}Tensões abaixo do nível d’águaLaboratório
Ângulo de atrito efetivoφ\varphi’Cálculo de KaK_aKa​ e KpK_pKp​Cisalhamento direto ou ensaio triaxial drenado
Coesão efetivacc’Resistência drenadaEnsaios drenados
Resistência não drenadasus_uAnálises de curto prazo em argilasTriaxial, palheta ou compressão simples
Módulo de deformabilidadeEsE_sDeslocamentosPressiômetro, dilatômetro, ensaios triaxiais ou retroanálise
Coeficiente de reação horizontalkhk_h​ ou ηh\eta_hModelos de interação solo-estacaEnsaios, curvas pyp-yp−y ou calibração
Nível d’águazwz_wPressão neutra e tensões efetivasSondagem, piezometria e monitoramento
SobrecargaqqEmpuxo adicionalUso do terreno e projeto
Resistência do concretofckf_{ck}Capacidade estrutural da estacaProjeto e especificação do concreto
Resistência do açofykf_{yk}Capacidade da armaduraEspecificação do aço

O parâmetro preferencial é aquele obtido por ensaio compatível com o mecanismo de carregamento estudado.

Correlações com SPT são estimativas. Elas são úteis para estudos preliminares, comparação de ordens de grandeza e análises de sensibilidade, mas não transformam o NSPT em um ensaio direto de atrito, coesão ou deformabilidade.

5. Correções do NSPT

O valor registrado em campo é representado por NSPTN_{SPT}​.

Quando a correlação foi desenvolvida com energia de referência igual a 60%, deve-se utilizar:

N60=NSPTCECBCRCSN_{60}=N_{SPT}\,C_E\,C_B\,C_R\,C_S

Onde:

  • CEC_E​: correção da energia do sistema;
  • CBC_B​: correção do diâmetro do furo;
  • CRC_R​: correção do comprimento das hastes;
  • CSC_S​: correção do tipo de amostrador.

A correção de energia pode ser expressa por:

CE=ER60C_E=\frac{ER}{60}

Onde ERER é a eficiência de energia medida ou estimada, em porcentagem.

Para algumas correlações em solos granulares, também se normaliza o resultado em função da tensão vertical efetiva:

(N1)60=CNN60(N_1)_{60}=C_N\,N_{60}

Uma forma comum de expressar o fator de normalização é:

CN=paσv0C_N=\sqrt{\frac{p_a}{\sigma’_{v0}}}

Onde:

  • pap_ap: pressão atmosférica de referência, aproximadamente 100 kPa100\ \text{kPa}100 kPa;
  • σv0\sigma’_{v0}′​: tensão vertical efetiva na profundidade do ensaio;
  • CNC_N​: fator limitado à faixa de validade da correlação escolhida.

Não se deve aplicar automaticamente uma correção sem verificar como a equação original foi desenvolvida. Algumas correlações utilizam NN, outras N60N_{60}​ e outras (N1)60(N_1)_{60}

6. Tabela de correlações entre NSPT e parâmetros geotécnicos

ParâmetroEstimativa baseada no SPTÍndice utilizadoUso recomendadoEnsaio preferencial
Ângulo de atrito efetivo de areiasφ=20+20(N1)60\varphi’=20+\sqrt{20(N_1)_{60}}(N1)60(N_1)_{60}Estimativa preliminar em areias compatíveis com a base empíricaTriaxial drenado ou cisalhamento direto
Resistência não drenada de argilassu=f1Ns_u=f_1NÍndice compatível com a correlaçãoEstudo preliminar com calibração localTriaxial, palheta ou compressão simples
Módulo de deformabilidadeEs=αEN60E_s=\alpha_E N_{60}N60N_{60}Análise preliminar e sensibilidadePressiômetro, dilatômetro, triaxial ou retroanálise
Compacidade de areiasFaixas relacionadas a N60N_{60}N60N_{60}Classificação qualitativaEnsaios de densidade e caracterização
Consistência de argilasFaixas qualitativas relacionadas ao SPTNNDescrição inicialEnsaios de resistência não drenada
Peso específicoFaixas por classificação do soloClassificação + SPTApenas estimativa inicialÍndices físicos
Coesão efetivaSem correlação universal recomendávelNão estimar mecanicamenteEnsaio drenado
Coeficiente de reação horizontalSem correlação universal únicaSPT como dado auxiliarModelos preliminaresEnsaio lateral, pressiômetro ou curvas pyp-y

Correlação para o ângulo de atrito

Para determinadas areias, Hatanaka e Uchida propuseram:

φ=20+20(N1)60\varphi’=20+\sqrt{20(N_1)_{60}}

Onde:

  • φ\varphi’: ângulo de atrito efetivo, em graus;
  • (N1)60(N_1)_{60}​: índice corrigido e normalizado.

O estudo original indicou aplicação dentro da faixa investigada de aproximadamente 3,5N1303,5\leq N_1\leq30. A equação não deve ser extrapolada indiscriminadamente para solos residuais, lateríticos, saprolíticos, cascalhos ou areias com quantidade relevante de finos.

Correlação para resistência não drenada

Para determinadas argilas pouco sensíveis:

su=f1Ns_u=f_1N

Onde:

  • sus_u​: resistência não drenada, em kPa;
  • f1f_1​: coeficiente empírico, em kPa por golpe;
  • NN: índice SPT compatível com a calibração.

Valores de f1f_1 encontrados em estudos clássicos variam aproximadamente entre 4 e 7 kPa por golpe, mas dependem do índice de plasticidade, da geologia, do equipamento e do procedimento do ensaio. Por isso, a relação precisa ser calibrada com resultados locais.

Correlação para o módulo de deformabilidade

Uma forma genérica é:

Es=αEN60E_s=\alpha_E N_{60}

Onde αE\alpha_E​ depende de:

  • tipo de solo;
  • nível de tensões;
  • compacidade ou consistência;
  • drenagem;
  • método utilizado para medir o módulo;
  • deformação correspondente ao problema.

Não existe um único valor universal de αE\alpha_EαE​.

Isso é particularmente importante em contenções porque a resistência controla a ruptura, enquanto o módulo influencia diretamente os deslocamentos. Os artigos recalque em fundações e estimativa de deformações pelo SPT e solo duro também recalca aprofundam essa distinção.

7. Dados do exemplo didático

DadoValor adotadoOrigem
Altura da escavaçãoH=2,50 mH=2,50\ \text{m}H=2,50 mGeometria do exemplo
SoloAreia homogêneaPerfil hipotético
NSPT representativoNSPT=8N_{SPT}=8Sondagem hipotética
Peso específicoγ=18 kN/m3\gamma=18\ \text{kN/m}^3Ensaio de índices físicos
Ângulo de atrito medidoφ=32\varphi’=32^\circEnsaio de laboratório
Coesão efetivac=0c’=0Hipótese para areia
Sobrecargaq=10 kPaq=10\ \text{kPa}Uso do terreno
Nível d’águaAbaixo da pontaHipótese principal
Diâmetro preliminarD=0,40 mD=0,40\ \text{m}Escolha inicial
Espaçamento preliminars=1,20 ms=1,20\ \text{m}Escolha a verificar
Concretofck=30 MPaf_{ck}=30\ \text{MPa}Projeto estrutural
Açofyk=500 MPaf_{yk}=500\ \text{MPa}Aço CA-50
Cobrimento nominalcnom=50 mmc_{nom}=50\ \text{mm}Hipótese didática
SistemaCortina espaçada em balançoModelo estudado

O vão livre inicial é:

g=sDg=s-Dg=1,200,40=0,80 mg=1,20-0,40=0,80\ \text{m}

Esse vão não pode permanecer sem análise. O solo entre as estacas e o elemento de fechamento precisam ser verificados separadamente.

8. Verificação da estimativa de φ\varphi’φ′ pelo NSPT

Para o exemplo, admite-se que o ensaio tenha energia de referência compatível com 60% e que os demais fatores sejam iguais a 1:

N60=8×1,0×1,0×1,0×1,0N_{60}=8\times1,0\times1,0\times1,0\times1,0N60=8N_{60}=8

Considere uma tensão vertical efetiva representativa:

σv0=65 kPa\sigma’_{v0}=65\ \text{kPa}

Assim:CN=10065C_N=\sqrt{\frac{100}{65}}CN=1,24C_N=1,24

Portanto:

(N1)60=1,24×8(N_1)_{60}=1,24\times8(N1)60=9,9(N_1)_{60}=9,9

Aplicando a correlação:

φcorr=20+20×9,9\varphi’_{corr}=20+\sqrt{20\times9,9}φcorr34,1\varphi’_{corr}\approx34,1^\circ

O ensaio de laboratório forneceu:

φlab=32\varphi’_{lab}=32^\circ

Neste exemplo, será utilizado:φ=32\boxed{\varphi’=32^\circ}

A correlação serviu como conferência de ordem de grandeza. O valor medido foi mantido porque é diretamente relacionado ao comportamento resistente do material ensaiado e, neste caso, também é inferior à estimativa empírica.

Para aprofundar esse tema, consulte correlações de NSPT: como realizar de maneira correta.

9. Tensões efetivas e nível d’água

A resistência do solo depende da tensão efetiva:

σv=σvu\sigma’_v=\sigma_v-u

Onde:

  • σv\sigma’_v​: tensão vertical efetiva;
  • σv\sigma_v​: tensão vertical total;
  • uu: pressão neutra da água.

Acima do nível d’água, no modelo simplificado:

σv=γz\sigma_v=\gamma z

Abaixo do nível d’água:u=γw(zzw)u=\gamma_w(z-z_w)

e:γ=γsatγw\gamma’=\gamma_{sat}-\gamma_w

Onde:γw9,81 kN/m3\gamma_w\approx9,81\ \text{kN/m}^3

O empuxo efetivo do solo deve ser calculado com as tensões efetivas. A pressão da água deve ser acrescentada separadamente.

A presença de água não deve ser resumida à simples substituição de γ\gamma por γsat\gamma_{sat}​. Ela altera a pressão neutra, a resistência passiva, a estabilidade do fundo e o risco de carreamento de solo.

Esse comportamento é aprofundado em água na sondagem e seus efeitos no projeto e na execução.

10. Coeficientes de empuxo pelo modelo de Rankine

Para terreno horizontal, solo sem coesão e atrito parede-solo desprezado:

Ka=tan2(45φ2)K_a=\tan^2\left(45^\circ-\frac{\varphi’}{2}\right)

Também pode ser escrito como:Ka=1sinφ1+sinφK_a=\frac{1-\sin\varphi’}{1+\sin\varphi’}

Para φ=32\varphi’=32^\circKa=1sin321+sin32K_a=\frac{1-\sin32^\circ}{1+\sin32^\circ}Ka=0,307\boxed{K_a=0,307}

O coeficiente passivo é:Kp=tan2(45+φ2)K_p=\tan^2\left(45^\circ+\frac{\varphi’}{2}\right)

ou:Kp=1+sinφ1sinφK_p=\frac{1+\sin\varphi’}{1-\sin\varphi’}

Logo:Kp=3,255\boxed{K_p=3,255}

Redução da resistência passiva

A mobilização integral do empuxo passivo exige deslocamentos maiores do que os necessários para mobilizar o empuxo ativo. Além disso, o solo situado à frente da cortina pode ser removido, perturbado ou apresentar condições piores do que as assumidas.

Neste exemplo didático será empregado:Kp=KpFSpK’_p=\frac{K_p}{FS_p}

Adotando:FSp=1,50FS_p=1,50

Tem-se:Kp=3,2551,50K’_p=\frac{3,255}{1,50}Kp=2,170\boxed{K’_p=2,170}

O procedimento de redução de KpK_pKp​, assim como os valores de segurança e o acréscimo de ficha utilizados adiante, segue o método simplificado apresentado pelo manual do Departamento de Transportes de Nova York. Esses critérios pertencem ao método de referência adotado no exemplo e não constituem uma regra universal para qualquer projeto.

11. Empuxo ativo acima da escavação

A pressão ativa causada pelo solo é:σh,γ(z)=Kaγz\sigma_{h,\gamma}(z)=K_a\gamma z

A parcela causada pela sobrecarga é:σh,q=Kaq\sigma_{h,q}=K_aq

Parcela da sobrecarga

σh,q=0,307×10\sigma_{h,q}=0,307\times10σh,q=3,07 kPa\boxed{\sigma_{h,q}=3,07\ \text{kPa}}

Parcela do peso do solo na cota de escavação

σh,γ(H)=KaγH\sigma_{h,\gamma}(H)=K_a\gamma Hσh,γ(H)=0,307×18×2,50\sigma_{h,\gamma}(H)=0,307\times18\times2,50σh,γ(H)=13,83 kPa\boxed{\sigma_{h,\gamma}(H)=13,83\ \text{kPa}}

A pressão total na cota de escavação é:σh(H)=3,07+13,83\sigma_h(H)=3,07+13,83

Ilustração técnica da APL Engenharia mostrando o empuxo ativo acima da escavação, com diagramas das pressões causadas pelo peso do solo e pela sobrecarga uniforme em uma cortina de estacas em balanço.

12. Transformação da pressão em carga por estaca

Acima da cota de escavação, cada estaca recebe a carga correspondente à sua largura tributária sss.

Resultante da sobrecarga

Fq=σh,qHsF_q=\sigma_{h,q}HsFq=3,07×2,50×1,20F_q=3,07\times2,50\times1,20Fq=9,22 kN por estaca\boxed{F_q=9,22\ \text{kN por estaca}}

Essa força atua no centro do retângulo, a:H2=1,25 m\frac{H}{2}=1,25\ \text{m}

acima da cota de escavação.

Resultante triangular do peso do solo

Fγ=12σh,γ(H)HsF_\gamma=\frac{1}{2}\sigma_{h,\gamma}(H)HsFγ=12×13,83×2,50×1,20F_\gamma=\frac{1}{2}\times13,83\times2,50\times1,20Fγ=20,74 kN por estaca\boxed{F_\gamma=20,74\ \text{kN por estaca}}

Essa força atua a:H3=0,833 m\frac{H}{3}=0,833\ \text{m}

acima da cota de escavação.

A força horizontal total acima da escavação é:Fa=Fq+FγF_a=F_q+F_\gammaFa=29,96 kN por estaca\boxed{F_a=29,96\ \text{kN por estaca}}

Para cortinas formadas por elementos discretos, manuais oficiais diferenciam a largura tributária acima da escavação, a largura ativa abaixo da escavação e a largura efetiva sobre a qual se mobiliza resistência passiva.

Ilustração técnica da APL Engenharia mostrando o empuxo ativo devido ao peso próprio do solo em uma cortina de estacas em balanço, com diagrama triangular de pressão, força resultante F
γ
	​

, altura da escavação H e ponto de aplicação a H/3
Demonstração do empuxo ativo devido ao peso proprio do solo

13. Larguras consideradas abaixo da escavação

No trecho embutido, o empuxo ativo atua diretamente sobre a largura da estaca:

ba=D=0,40 mb_a=D=0,40\ \text{m}

Para a resistência passiva, o método adotado admite uma largura efetiva máxima igual a três vezes o diâmetro do furo, limitada pelo espaçamento entre os elementos:

bp=min(3D,s)b_p=\min(3D,s)bp=min(3×0,40, 1,20)b_p=\min(3\times0,40,\ 1,20)bp=1,20 m\boxed{b_p=1,20\ \text{m}}

Esse procedimento representa o efeito tridimensional do solo em torno de um elemento isolado.

Quando as estacas estão muito próximas, as zonas passivas podem se sobrepor. A FHWA observa que espaçamentos inferiores a aproximadamente três diâmetros podem gerar sobreposição das regiões de influência, exigindo análise compatível com o comportamento do conjunto.

Ilustração técnica da APL Engenharia mostrando as larguras consideradas abaixo da escavação em uma cortina de estacas, com largura ativa b
a
	​

=D e largura passiva efetiva b
p
	​

=min(3D,s), além do diâmetro da estaca, espaçamento entre eixos e linha de escavação.

14. Pressões e forças no trecho embutido

Considere xx medido para baixo a partir da cota de escavação.

Pressão ativa atrás da estaca

wa(x)=D[Ka(γH+q)+Kaγx]w_a(x)=D\left[K_a(\gamma H+q)+K_a\gamma x\right]

Substituindo os valores:wa(x)=0,40[16,90+0,307×18x]w_a(x)=0,40\left[16,90+0,307\times18x\right]wa(x)=6,760+2,212xw_a(x)=6,760+2,212x

Em kN/m de estaca.

Pressão passiva reduzida na frente da estaca

wp(x)=Kpγxbpw_p(x)=K’_p\gamma xb_pwp(x)=2,170×18×1,20xw_p(x)=2,170\times18\times1,20xwp(x)=46,866xw_p(x)=46,866x

Pressão líquida

Adotando o sentido ativo como positivo:w(x)=wa(x)wp(x)w(x)=w_a(x)-w_p(x)w(x)=6,76044,654x\boxed{w(x)=6,760-44,654x}

No início do embutimento, a pressão ainda atua no sentido ativo. Com a profundidade, a resistência passiva cresce e passa a dominar.

lustração técnica da APL Engenharia mostrando as pressões e forças atuantes no trecho embutido de uma cortina de estacas em balanço, com a linha de escavação, a estaca circular, o empuxo ativo no lado do terreno, a resistência passiva reduzida no lado escavado, os diagramas de pressão w
a
	​

(x), w
p
	​

(x) e w(x), além das forças resultantes F
0
	​

, F
a,t
	​

 e F
p
	​

.

15. Cálculo da ficha teórica

A ficha será encontrada pelo equilíbrio de momentos em relação à ponta da estaca.

Para uma ficha genérica ddd, as forças no trecho embutido são:

Parcela retangular ativa

F0=(σh,q+σh,γ(H))DdF_0=(\sigma_{h,q}+\sigma_{h,\gamma}(H))DdF0=16,90×0,40dF_0=16,90\times0,40dF0=6,760d\boxed{F_0=6,760d}

Parcela triangular ativa

Fa,t=12KaγDd2F_{a,t}=\frac{1}{2}K_a\gamma Dd^2Fa,t=12×0,307×18×0,40d2F_{a,t}=\frac{1}{2}\times0,307\times18\times0,40d^2Fa,t=1,106d2\boxed{F_{a,t}=1,106d^2}

Parcela triangular passiva reduzida

Fp=12Kpγbpd2F_p=\frac{1}{2}K’_p\gamma b_pd^2Fp=12×2,170×18×1,20d2F_p=\frac{1}{2}\times2,170\times18\times1,20d^2Fp=23,433d2\boxed{F_p=23,433d^2}

Equação de momentos na ponta

Fq(d+H2)+Fγ(d+H3)+F0d2+Fa,td3Fpd3=0F_q\left(d+\frac{H}{2}\right) + F_\gamma\left(d+\frac{H}{3}\right) + F_0\frac{d}{2} + F_{a,t}\frac{d}{3} – F_p\frac{d}{3} =0

Substituindo:9,218(d+1,25)+20,740(d+0,833)+(6,760d)d2+(1,106d2)d3(23,433d2)d3=09,218(d+1,25) + 20,740(d+0,833) + (6,760d)\frac{d}{2} + (1,106d^2)\frac{d}{3} – (23,433d^2)\frac{d}{3} =0

Após a organização:7,442d3+3,380d2+29,958d+28,805=0-7,442d^3+3,380d^2+29,958d+28,805=0

A raiz positiva é:d=2,588 m\boxed{d=2,588\ \text{m}}

Verificação por tentativas

TentativaFicha dddMomento ativoMomento passivoResultado
12,00 m105,19 kN·m62,49 kN·mInsuficiente
22,30 m120,07 kN·m95,04 kN·mInsuficiente
32,50 m130,58 kN·m122,05 kN·mInsuficiente
42,588 m135,35 kN·m135,35 kN·mEquilíbrio
52,60 m136,02 kN·m137,29 kN·mResistente

A tabela permite visualizar que a ficha é encontrada iterativamente.

Acréscimo do método simplificado

O procedimento de referência utilizado recomenda aumentar em 20% a ficha obtida pelo método simplificado:

df=1,20dd_f=1,20ddf=1,20×2,588d_f=1,20\times2,588df=3,11 m\boxed{d_f=3,11\ \text{m}}

Esse acréscimo não é o fator de segurança aplicado ao empuxo passivo. A redução de KpK_pKp​ já foi realizada anteriormente.

O comprimento total preliminar é:L=H+dfL=H+d_fL=2,50+3,11L=2,50+3,11L=5,61 m\boxed{L=5,61\ \text{m}}

Em um projeto real, o comprimento precisaria ser compatibilizado com a estratigrafia, a profundidade dos equipamentos, a estabilidade global, a água e as tolerâncias executivas.

16. Localização do momento fletor máximo

O momento máximo ocorre onde o esforço cortante é igual a zero.

A força acumulada acima da escavação é:Fa=29,958 kNF_a=29,958\ \text{kN}

A carga líquida abaixo da escavação é:w(x)=6,76044,654xw(x)=6,760-44,654x

O esforço cortante a uma profundidade yyy abaixo da escavação é:V(y)=29,958+0y(6,76044,654x)dxV(y)=29,958+\int_0^y(6,760-44,654x)\,dxV(y)=29,958+6,760y22,327y2V(y)=29,958+6,760y-22,327y^2

Fazendo:V(y)=0V(y)=029,958+6,760y22,327y2=029,958+6,760y-22,327y^2=0

A raiz positiva é:y=1,320 m\boxed{y=1,320\ \text{m}}

Portanto, o momento máximo ocorre aproximadamente 1,32 m abaixo da cota de escavação.

Isso demonstra por que não é correto assumir automaticamente que o momento máximo ocorre exatamente no nível do fundo da escavação. Manuais de paredes com elementos verticais recomendam calcular a variação dos esforços ao longo da profundidade.

Infográfico técnico da APL Engenharia mostrando a localização do momento fletor máximo em uma cortina de estacas em balanço, com empuxo ativo acima da escavação, resistência passiva no trecho embutido, linha de escavação, profundidade y e diagrama de momento fletor indicando que o valor máximo ocorre a 1,32 m abaixo da linha de escavação.
Infográfico técnico da APL Engenharia mostrando a localização do momento fletor máximo em uma cortina de estacas em balanço, com empuxo ativo acima da escavação, resistência passiva no trecho embutido, linha de escavação, profundidade y e diagrama de momento fletor indicando que o valor máximo ocorre a 1,32 m abaixo da linha de escavação.

17. Cálculo do momento máximo

O momento na seção situada a uma profundidade yyy é:M(y)=Fq(y+H2)+Fγ(y+H3)+6,760y2244,654y36M(y)= F_q\left(y+\frac{H}{2}\right) + F_\gamma\left(y+\frac{H}{3}\right) + \frac{6,760y^2}{2} – \frac{44,654y^3}{6}

Ou:M(y)=28,805+29,958y+3,380y27,442y3M(y)=28,805+29,958y+3,380y^2-7,442y^3

Para:y=1,320 my=1,320\ \text{m}

tem-se:Mk=57,12 kN\cdotpmM_k=57,12\ \text{kN·m}

Portanto:Mk=57,12 kN\cdotpm por estaca\boxed{M_k=57,12\ \text{kN·m por estaca}}

No exemplo estrutural, será adotado um fator didático:

γF=1,40\gamma_F=1,40

Assim:MSd=γFMkM_{Sd}=\gamma_FM_kMSd=1,40×57,12M_{Sd}=1,40\times57,12MSd=79,97 kN\cdotpm\boxed{M_{Sd}=79,97\ \text{kN·m}}

O valor de γF=1,40\gamma_F=1,40γF​=1,40 foi utilizado apenas para demonstrar a passagem da solicitação característica para a solicitação de cálculo. As combinações definitivas devem seguir as ações, durações, condições provisórias e normas aplicáveis ao projeto.

18. Como calcular o espaçamento entre as estacas

O espaçamento não é obtido por uma única equação isolada.

Ele precisa atender simultaneamente a:

  1. capacidade estrutural de cada estaca;
  2. ficha necessária;
  3. resistência passiva mobilizável;
  4. estabilidade do solo entre as estacas;
  5. dimensionamento do fechamento;
  6. controle de água;
  7. deslocamentos admissíveis;
  8. tolerâncias de locação e verticalidade;
  9. acesso e capacidade do equipamento.

Para demonstrar a influência estrutural, o cálculo foi repetido para diferentes espaçamentos, mantendo:

D=0,40 mD=0,40\ \text{m}

Espaçamento sssVão livre gggFicha teóricaFicha com acréscimoMkM_kMk​MSdM_{Sd}MSd​
0,80 m0,40 m2,74 m3,28 m40,53 kN·m56,74 kN·m
1,00 m0,60 m2,65 m3,17 m48,76 kN·m68,27 kN·m
1,20 m0,80 m2,59 m3,11 m57,12 kN·m79,97 kN·m
1,40 m1,00 m2,75 m3,31 m68,74 kN·m96,24 kN·m
1,60 m1,20 m2,91 m3,49 m80,81 kN·m113,13 kN·m

O aumento do espaçamento eleva a largura tributária e, portanto, a carga recebida por cada estaca.

Entretanto, reduzir o espaçamento também não é uma decisão automaticamente positiva. Estacas muito próximas podem:

  • provocar sobreposição das zonas passivas;
  • dificultar a perfuração;
  • aumentar interferências entre fustes;
  • elevar o consumo de concreto;
  • alterar o comportamento para uma parede quase contínua;
  • exigir outro modelo geotécnico.

O cálculo estrutural desenvolvido adiante indicará uma resistência aproximada de:

MRd=90,4 kN\cdotpmM_{Rd}=90,4\ \text{kN·m}

A solução iterativa fornece um limite estrutural aproximado:

smaˊx1,33 ms_{máx}\approx1,33\ \text{m}

Adota-se:s=1,20 m\boxed{s=1,20\ \text{m}}

Esse valor fornece reserva estrutural, mas a estabilidade do vão livre de 0,80 m e o sistema de fechamento ainda precisam ser dimensionados.

19. Dimensionamento preliminar da armadura longitudinal

A estaca possui:D=400 mmD=400\ \text{mm}

Logo, o raio é:R=200 mmR=200\ \text{mm}

A área bruta é:Ag=πD24A_g=\frac{\pi D^2}{4}Ag=π×40024A_g=\frac{\pi\times400^2}{4}Ag=125664 mm2\boxed{A_g=125\,664\ \text{mm}^2}

Resistências de cálculo

Para o concreto:fcd=fckγcf_{cd}=\frac{f_{ck}}{\gamma_c}

Adotando:γc=1,40\gamma_c=1,40fcd=301,40f_{cd}=\frac{30}{1,40}fcd=21,43 MPa\boxed{f_{cd}=21,43\ \text{MPa}}

Para o aço:fyd=fykγsf_{yd}=\frac{f_{yk}}{\gamma_s}

Adotando:γs=1,15\gamma_s=1,15fyd=5001,15f_{yd}=\frac{500}{1,15}fyd=434,8 MPa\boxed{f_{yd}=434,8\ \text{MPa}}

A ABNT NBR 6118:2026 é a referência brasileira atual para o projeto de estruturas de concreto, incluindo os critérios de resistência, deformações, detalhamento e verificação das seções.

20. Estimativa inicial da área de aço

Considere inicialmente:

  • cobrimento nominal: 50 mm50\ \text{mm}50 mm;
  • estribo: 8 mm8\ \text{mm}8 mm;
  • barras longitudinais: aproximadamente 16 mm16\ \text{mm}16 mm.

A distância da face comprimida ao centro da barra extrema tracionada é aproximadamente:

de=400508162d_e=400-50-8-\frac{16}{2}de=334 mmd_e=334\ \text{mm}

Para uma estimativa inicial, adote:z0,85dez\approx0,85d_ez0,85×334z\approx0,85\times334z284 mmz\approx284\ \text{mm}

Então:As,est=MSdfydzA_{s,est}=\frac{M_{Sd}}{f_{yd}z}As,est=79,97×106434,8×284A_{s,est}= \frac{79,97\times10^6} {434,8\times284}As,est648 mm2\boxed{A_{s,est}\approx648\ \text{mm}^2}

Esse valor é apenas uma estimativa.

Em uma seção circular, as barras são distribuídas ao redor do perímetro. Nem toda a área longitudinal fica concentrada na face tracionada. Por isso, aplicar diretamente uma fórmula de viga retangular pode superestimar a capacidade da estaca.

A seção deve ser verificada por compatibilidade de deformações e equilíbrio.

21. Verificação rigorosa da seção circular

Considere uma seção circular com barras igualmente distribuídas.

Posição das barras

O raio da circunferência que passa pelos centros das barras é:

rs=Rcnomφtφl2r_s=R-c_{nom}-\varphi_t-\frac{\varphi_l}{2}

Onde:

  • RRR: raio da estaca;
  • cnomc_{nom}cnom​: cobrimento nominal;
  • φt\varphi_tφt​: diâmetro do estribo;
  • φl\varphi_lφl​: diâmetro da barra longitudinal.

Para barras de 16 mm:rs=2005088r_s=200-50-8-8rs=134 mm\boxed{r_s=134\ \text{mm}}

A coordenada vertical de cada barra é:yi=rscosθiy_i=r_s\cos\theta_i

Para nnn barras igualmente espaçadas:θi=2πin\theta_i=\frac{2\pi i}{n}

Bloco comprimido de concreto

Considere:a=λxa=\lambda x

Onde:

  • xxx: profundidade da linha neutra;
  • λ\lambdaλ: coeficiente do bloco equivalente;
  • aaa: altura do segmento circular comprimido.

Para o exemplo:λ=0,80\lambda=0,80

A área do segmento circular comprimido é:Ac=R2arccos(RaR)(Ra)2Raa2A_c= R^2\arccos\left(\frac{R-a}{R}\right) – (R-a)\sqrt{2Ra-a^2}

O primeiro momento da área comprimida em relação ao centro é:

Qc=23(2Raa2)3/2Q_c=\frac{2}{3}(2Ra-a^2)^{3/2}

A posição do centroide do bloco comprimido é:yc=QcAcy_c=\frac{Q_c}{A_c}

A força de compressão no concreto é:Cc=αcfcdAcC_c=\alpha_cf_{cd}A_c

Para o exemplo:αc=0,85\alpha_c=0,85

Deformação em cada barra

A profundidade da barra iii, medida a partir da borda comprimida, é:

di=Ryid_i=R-y_i

Adotando distribuição linear de deformações:

εsi=εcuxdix\varepsilon_{si} = \varepsilon_{cu} \frac{x-d_i}{x}

Para o exemplo:εcu=3,5\textperthousand\varepsilon_{cu}=3,5\text{\textperthousand}

A tensão em cada barra é:σsi=Esεsi\sigma_{si}=E_s\varepsilon_{si}

limitada por:fydσsifyd-f_{yd}\leq\sigma_{si}\leq f_{yd}

Equilíbrio de forças

Para o exemplo sem força normal externa relevante:NSd=0N_{Sd}=0

Logo:Cc+Asiσsi=0C_c+\sum A_{si}\sigma_{si}=0

A equação é resolvida iterativamente para encontrar xxx.

Momento resistente

Depois de encontrar a linha neutra:MRd=Ccyc+AsiσsiyiM_{Rd} = C_cy_c + \sum A_{si}\sigma_{si}y_i

A seção atende quando:MRdMSdM_{Rd}\geq M_{Sd}


22. Comparação das armaduras testadas

ArmaduraÁrea total AsA_sAs​Momento resistente aproximadoResultado
6 Ø 12,5 mm736 mm²48,0 kN·mNão atende
8 Ø 12,5 mm982 mm²61,0 kN·mNão atende
6 Ø 16 mm1.206 mm²71,5 kN·mNão atende
8 Ø 16 mm1.608 mm²90,4 kN·mAtende

A armadura adotada no exemplo é:8  16 mm\boxed{8\ \varnothing\ 16\ \text{mm}}

A taxa geométrica é:ρ=AsAg\rho=\frac{A_s}{A_g}ρ=1608125664\rho=\frac{1\,608}{125\,664}ρ=1,28%\boxed{\rho=1,28\%}

A verificação demonstra um ponto importante: a estimativa simplificada indicou aproximadamente 648 mm², mas a análise da seção circular mostrou que uma área total maior foi necessária devido à distribuição das barras ao redor do perímetro.

O artigo armadura de estacas: compressão, flexo-compressão e profundidade armada aprofunda a relação entre esforços, comprimento armado e condições executivas.

23. Armadura transversal e esforço cortante

A definição de 8 barras longitudinais não encerra o dimensionamento estrutural.

Também precisam ser verificados:

  • esforço cortante máximo;
  • armadura transversal;
  • confinamento;
  • espaçamento dos estribos;
  • emendas;
  • ancoragens;
  • cobrimento;
  • abertura de fissuras;
  • durabilidade;
  • transporte e içamento da gaiola;
  • estabilidade da armadura durante a concretagem.

O diâmetro de 8 mm utilizado anteriormente para o estribo foi apenas uma hipótese geométrica para posicionar as barras longitudinais.

O espaçamento definitivo da armadura transversal deve ser obtido a partir do esforço cortante do modelo estrutural completo e dos critérios normativos aplicáveis.

24. Verificação do efeito da água

Considere, apenas para demonstrar a influência, que o nível d’água esteja a 1,00 m abaixo da superfície.

A altura de água atrás da cortina acima da cota de escavação será:

hw=Hzwh_w=H-z_whw=2,501,00h_w=2,50-1,00hw=1,50 mh_w=1,50\ \text{m}

A pressão hidrostática máxima será:umax=γwhwu_{max}=\gamma_wh_wumax=9,81×1,50u_{max}=9,81\times1,50umax=14,72 kPau_{max}=14,72\ \text{kPa}

A resultante por metro de cortina é:Pw=12γwhw2P_w=\frac{1}{2}\gamma_wh_w^2Pw=12×9,81×1,502P_w=\frac{1}{2}\times9,81\times1,50^2Pw=11,04 kN/m\boxed{P_w=11,04\ \text{kN/m}}

Por estaca:Pw,p=PwsP_{w,p}=P_wsPw,p=11,04×1,20P_{w,p}=11,04\times1,20Pw,p=13,25 kN\boxed{P_{w,p}=13,25\ \text{kN}}

Essa força adicional é equivalente a aproximadamente 44% da força ativa de solo calculada acima da escavação:

13,2529,9644%\frac{13,25}{29,96}\approx44\%

Além da pressão hidrostática, abaixo do nível d’água devem ser utilizadas tensões efetivas e peso específico submerso.

Portanto, a presença de água pode modificar significativamente:

  • ficha;
  • momento máximo;
  • esforço cortante;
  • armadura;
  • deslocamentos;
  • estabilidade do fundo;
  • necessidade de drenagem ou rebaixamento.

25. O cálculo de equilíbrio não fornece sozinho os deslocamentos

O método utilizado permite estimar:

  • empuxos;
  • ficha;
  • força resultante;
  • cortante;
  • momento;
  • armadura preliminar.

Ele não representa integralmente a interação solo-estrutura.

Para estimar deslocamentos podem ser utilizados:

  • modelo de Winkler;
  • coeficientes de reação horizontal;
  • curvas pyp-yp−y;
  • elementos finitos;
  • modelos constitutivos do solo;
  • análises por etapas construtivas.

Nas cortinas urbanas, o controle de deformações pode ser mais restritivo do que a própria resistência estrutural.

Uma cortina pode apresentar segurança contra ruptura e ainda gerar deslocamentos capazes de afetar:

  • fundações vizinhas;
  • muros;
  • pavimentos;
  • redes enterradas;
  • estruturas frágeis;
  • edificações antigas.

O artigo estacas carregadas transversalmente no topo apresenta conceitos complementares sobre interação lateral entre estacas e solo.

26. Verificações adicionais obrigatórias

O exemplo não substitui as seguintes verificações:

Estabilidade global

Deve-se investigar a possibilidade de uma superfície de ruptura atravessar o maciço, a cortina e o solo abaixo da escavação.

Ruptura do fundo

Em argilas moles ou escavações profundas, o fundo pode sofrer levantamento ou perda de estabilidade.

Levantamento hidráulico

Pressões de água abaixo do fundo podem superar o peso do solo ou da estrutura.

Piping e erosão interna

Fluxos hidráulicos podem transportar partículas e provocar vazios ou recalques.

Estabilidade do solo entre as estacas

Na cortina espaçada, o vão de 0,80 m deve ser analisado considerando arqueamento, resistência local, água e sistema de fechamento.

Integridade estrutural

Devem ser verificados momento, cortante, esforço normal, fissuração, durabilidade e detalhamento.

Condição provisória e permanente

A etapa de construção pode ser mais crítica do que a situação definitiva.

Sequência de escavação

Mesmo uma cortina em balanço precisa respeitar a profundidade liberada, o tempo de cura do concreto e a execução do fechamento.

Vizinhança

Devem ser levantadas fundações, redes, edificações e deslocamentos admissíveis.

Instrumentação

Conforme a sensibilidade da obra, podem ser necessários marcos topográficos, pinos de recalque, inclinômetros e piezômetros.

27. Quando a cortina em balanço deixa de ser adequada

O aumento da altura de escavação produz crescimento expressivo dos momentos.

A parcela triangular do solo gera momento proporcional, aproximadamente, a:

MH3M\propto H^3

Isso significa que um aumento aparentemente pequeno da altura pode elevar muito a solicitação.

Tirantes, escoras ou lajes intermediárias podem:

  • reduzir momentos;
  • reduzir deslocamentos;
  • diminuir a ficha necessária;
  • permitir escavações mais profundas;
  • melhorar o controle da vizinhança.

Contudo, esses apoios introduzem novas verificações:

  • carga em cada tirante;
  • inclinação;
  • espaçamento;
  • comprimento livre;
  • comprimento ancorado;
  • capacidade do bulbo;
  • aço de protensão;
  • ensaios;
  • perdas;
  • proteção contra corrosão;
  • interferência com terrenos vizinhos;
  • sequência de escavação e protensão.

O dimensionamento completo será tratado em outro artigo:

Como dimensionar tirantes em cortinas de contenção: carga, trecho livre, bulbo, ensaios e protensão

Manuais técnicos determinam que cada fase de uma cortina ancorada seja analisada, porque a escavação necessária para instalar cada novo nível modifica os esforços e os deslocamentos do sistema.

28. Resumo do exemplo calculado

ResultadoValor
Altura de escavação2,50 m
Ângulo de atrito adotado3232^\circ32∘
KaK_aKa​0,307
KpK_pKp​3,255
KpK’_pKp′​ reduzido2,170
Diâmetro0,40 m
Espaçamento1,20 m
Vão livre0,80 m
Ficha teórica2,59 m
Ficha final didática3,11 m
Comprimento total5,61 m
Momento característico57,12 kN·m
Momento de cálculo79,97 kN·m
Armadura adotada8 Ø 16 mm
Área de aço1.608 mm²
Momento resistente aproximado90,4 kN·m
Taxa de armadura1,28%

29. Roteiro para dimensionar outra cortina

Ao desenvolver outro exemplo, siga esta ordem:

Etapa 1 — Definir a geometria

Obter:H,D,s,q,zwH,\quad D,\quad s,\quad q,\quad z_w

Etapa 2 — Interpretar a investigação

Identificar:

  • camadas;
  • NSPT;
  • nível d’água;
  • materiais resistentes;
  • transições;
  • variabilidade lateral.

Etapa 3 — Definir os parâmetros

Obter:γ,γsat,φ,c,su,Es\gamma,\quad\gamma_{sat},\quad\varphi’,\quad c’,\quad s_u,\quad E_s

Etapa 4 — Calcular tensões efetivas

σv=σvu\sigma’_v=\sigma_v-u

Etapa 5 — Calcular os coeficientes de empuxo

Ka,KpK_a,\quad K_p

Etapa 6 — Montar os diagramas

Separar:

  • solo;
  • sobrecarga;
  • água;
  • pressões abaixo da escavação.

Etapa 7 — Calcular a ficha

Resolver:M=0\sum M=0

e aplicar os critérios de segurança e ajustes do método adotado.

Etapa 8 — Localizar o momento máximo

Resolver:V(y)=0V(y)=0

e calcular:Mmax=M(y)M_{max}=M(y)

Etapa 9 — Verificar o espaçamento

Repetir o cálculo para valores diferentes de sss, verificando também o solo entre as estacas e o fechamento.

Etapa 10 — Dimensionar a seção

Verificar:MRdMSdM_{Rd}\geq M_{Sd}VRdVSdV_{Rd}\geq V_{Sd}

e, quando houver força normal:(NSd,MSd)(N_{Sd},M_{Sd})

no diagrama de interação da seção.

Etapa 11 — Verificar deslocamentos

Utilizar um modelo de interação solo-estrutura compatível com a sensibilidade da obra.

Etapa 12 — Verificar a obra como sistema

Analisar:

  • estabilidade global;
  • fundo;
  • água;
  • vizinhança;
  • sequência executiva;
  • instrumentação;
  • durabilidade;
  • condição provisória e permanente.

Conclusão

O dimensionamento de uma cortina de estacas em balanço exige a integração de três áreas:

  • investigação geotécnica;
  • mecânica dos solos;
  • estruturas de concreto.

No exemplo desenvolvido, a análise seguiu a sequência:

  1. interpretação do NSPT;
  2. definição dos parâmetros;
  3. cálculo dos empuxos;
  4. determinação da ficha;
  5. localização do momento máximo;
  6. verificação do espaçamento;
  7. dimensionamento da seção circular;
  8. escolha da armadura.

O resultado didático foi uma cortina com:D=0,40 mD=0,40\ \text{m}s=1,20 ms=1,20\ \text{m}df=3,11 md_f=3,11\ \text{m}8  16 mm8\ \varnothing\ 16\ \text{mm}

Esses valores não devem ser transportados para outra obra. Eles pertencem exclusivamente às hipóteses apresentadas.

Alterar o solo, a altura, a água, a sobrecarga ou a vizinhança altera o problema.

A principal conclusão não é uma fórmula, mas uma sequência lógica:

Uma equação corretamente resolvida não corrige um perfil geotécnico insuficientemente investigado.

A APL Engenharia atua com geotecnia, sondagem SPT, projetos e execução de cortinas de contenção e fundações profundas, incluindo estacas escavadas e tubulões, hélice contínua monitorada e estaca raiz.

Para análise da investigação, projeto da contenção ou avaliação da solução executiva, fale com a equipe técnica da APL Engenharia.