Entenda o calor de hidratação do cimento

Uma dúvida muito comum na engenharia é: por que o concreto esquenta durante o endurecimento?

Para quem observa a concretagem pela primeira vez, isso pode parecer contraintuitivo. Afinal, a mistura contém água, e intuitivamente esperaríamos que o material resfriasse enquanto endurece.

No entanto, o concreto não endurece porque seca.
Ele endurece porque ocorre uma reação química entre o cimento e a água, conhecida como hidratação do cimento.

E essa reação libera calor.

Esse fenômeno é chamado de calor de hidratação e é um dos aspectos mais importantes da tecnologia do concreto, especialmente em estruturas de grande volume, como blocos de fundação, radiers e barragens.


Concreto não seca: ele hidrata

O cimento Portland é composto principalmente por quatro fases minerais:

  • C₃S – silicato tricálcico
  • C₂S – silicato dicálcico
  • C₃A – aluminato tricálcico
  • C₄AF – ferroaluminato tetracálcico

Quando esses compostos entram em contato com a água, ocorre uma série de reações químicas que produzem novos compostos hidratados.

Os principais produtos formados são:

  • C-S-H (silicato de cálcio hidratado)
  • hidróxido de cálcio – Ca(OH)₂

O C-S-H é o principal responsável pela resistência mecânica do concreto.
Ele forma uma estrutura microscópica que preenche os vazios e conecta os grãos da mistura, criando uma matriz rígida.

Esse processo é chamado de hidratação do cimento.


O que são reações exotérmicas

Durante a hidratação do cimento ocorre um fenômeno importante: a reação libera energia térmica.

Reações químicas que liberam calor são chamadas de reações exotérmicas.

Em termos simples:

  • o cimento reage com a água
  • novas fases minerais são formadas
  • energia química é liberada na forma de calor.

Esse calor liberado durante a hidratação é chamado de calor de hidratação do cimento.

Dependendo do tipo de cimento, o calor total liberado pode atingir aproximadamente:

300 a 500 kJ por kg de cimento.

Em estruturas de grande volume, essa energia pode elevar significativamente a temperatura do concreto.


Por que o concreto pode atingir temperaturas elevadas

Em peças pequenas, como vigas ou pilares, o calor gerado pela hidratação se dissipa rapidamente para o ambiente.

No entanto, em estruturas massivas, o calor pode ficar retido no interior da peça.

Exemplos típicos incluem:

  • blocos de fundação
  • radiers espessos
  • barragens
  • grandes pilares
  • bases de equipamentos industriais.

Nesses casos, a temperatura interna do concreto pode subir 20 °C a 70 °C acima da temperatura ambiente.

Esse aumento de temperatura pode gerar gradientes térmicos, especialmente entre o núcleo da peça e a superfície.


Risco de fissuração térmica

Quando o concreto aquece e depois esfria, ocorrem variações volumétricas.

Se diferentes partes da estrutura estiverem a temperaturas distintas, podem surgir tensões internas.

Essas tensões podem gerar:

  • fissuração térmica
  • perda de durabilidade
  • comprometimento do desempenho estrutural.

Por isso o controle térmico é uma preocupação importante em concretagens de grande volume.


Qual temperatura exige atenção durante a concretagem

Diversas recomendações técnicas indicam limites de temperatura para o concreto fresco.

Em geral:

  • temperaturas acima de 30 °C já exigem cuidados adicionais na concretagem
  • temperaturas acima de 35 °C são consideradas críticas em muitos casos.

Em obras de grande volume, recomenda-se frequentemente suspender ou reprogramar a concretagem quando a temperatura do concreto fresco ultrapassa aproximadamente 35 °C, dependendo das especificações do projeto e das condições ambientais.

Isso ocorre porque temperaturas elevadas podem provocar:

  • aceleração excessiva da hidratação
  • perda de trabalhabilidade
  • maior risco de fissuração térmica.

Em obras de grande porte, estratégias de controle podem incluir:

  • uso de cimento de baixo calor de hidratação
  • resfriamento dos agregados
  • uso de gelo na mistura
  • concretagem em horários noturnos
  • monitoramento da temperatura interna da peça.

Assista à explicação em vídeo

Produzimos também um vídeo explicando esse fenômeno de forma visual e didática.

No vídeo mostramos:

  • por que o concreto não seca, ele hidrata
  • o que é o calor de hidratação
  • por que o concreto pode aquecer durante o endurecimento
  • quando a temperatura pode se tornar um problema em obras reais.

Assista ao vídeo aqui


Conclusão

O aumento de temperatura observado durante o endurecimento do concreto é consequência direta das reações de hidratação do cimento.

Essas reações são exotérmicas, liberando calor à medida que novos produtos hidratados são formados.

Em elementos estruturais de grande volume, esse calor pode elevar significativamente a temperatura interna do concreto, exigindo cuidados adicionais para evitar fissuração térmica e perda de desempenho da estrutura.

Por esse motivo, o controle da temperatura durante a concretagem é um aspecto fundamental da tecnologia do concreto e da engenharia estrutural.


Referências técnicas

Mehta, P. K.; Monteiro, P. J. M.
Concrete: Microstructure, Properties and Materials.

Neville, A. M.
Properties of Concrete.

ABCP – Associação Brasileira de Cimento Portland
Tecnologia do Concreto.